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Astropolítica

"Se se pudessem interrogar as estrelas perguntar-lhes-ia se as maçam mais os astrónomos ou os poetas." Pitigrilli

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"Se se pudessem interrogar as estrelas perguntar-lhes-ia se as maçam mais os astrónomos ou os poetas." Pitigrilli

A história secreta dos U-2

Nos últimos dias tem-se escrito muito sobre os documentos declassificados pela CIA que revelam a existência da Área 51 mas não de extraterrestres. Um dos pontos qee não tem sido abordado, e vale a leitura aqui,  está relacionado com o uso dos U-2, aviões que os EUA usaram na Guerra Fria para recolha de imagens sobre território inimigo.

 

A queda do U-2 de gary Powers em Maio 1961 acelerou o desenvolvimento de programas de satélite que fizessem a recolha de imagens sem o risco de ser abatidos ou descobertos pelos inimigo. Deixo aqui um excerto da minha tese de Mestrado em que abordo a importância do U-2 e a transição para o uso de sistemas de recolha de imagens por satélite.

 

 

 

"A estratégia da Guerra Fria de Eisenhower passava por covert actions. Durante a II Guerra Mundial, Eisenhower ganhou uma paixão por imagery intelligence que se refletiu na sua presidência.[1] Desde o início do seu mandato que Eisenhower tentou desenvolver a intelligence americana e a recolha de imagens. Apesar de reconhecer que o foto-reconhecimento por satélite seria muito mais benéfico, assumiu-se que os problemas tecnológicos, incluindo o desenvolvimento de veículos de lançamento viáveis, iriam adiar o funcionamento do sistema até meados de 1960, na melhor das hipóteses. Por esse motivo, a administração Eisenhower apostou em projetos de aviação avançados, começando pelos U-2 e depois avançando para um avião espião supersónico, quando se aperceberam que os U-2 poderiam ser detetados pelos radares soviéticos.[2]

 

Apesar de Eisenhower considerar as missões dos U-2 de extrema importância, estava ansioso por uma solução alternativa de recolha de dados de modo a limitar a provocação ao Kremlin. Por esse motivo, mostrava-se bastante relutante em autorizar tantas missões quanto Richard Bissel[3] queria. [4] A principal missão dos U-2 era procurar e monitorizar a produção de ICBM e o desenvolvimento de instalações de energia atómica em território soviético.[5]

 

Devido à sua aposta em satélites de reconhecimento, a CIA tornou-se interessada no Vanguard. Em finais de 1956, Bissel apercebeu-se que o esforço americano para chegar ao espaço estava aquém das capacidades soviéticas. Eisenhower considerou que um satélite lançado no decorrer do Ano Geofísico Internacional iria fortalecer a liberdade dos céus numa altura em que os Estados Unidos secretamente estavam a desenvolver aviões e satélites espiões para fazer reconhecimento da URSS.[6]

 

Em 1960, as missões do U-2 sobre solo soviético terminaram abruptamente quando um dos aviões foi abatido a 1 de Maio.[7] O plano de voo deste U-2 pilotado por Gary Powers dar-lhe-ia a possibilidade de fotografar a nova base de mísseis soviética em Plesetsk, no nordeste do território soviético. Iria também sobrevoar a base nuclear de Tyuratam e o complexo de construção de bombas em Chelyabinsk. O tempo de voo daria imenso tempo para que os soviéticos detetassem o U-2[8], o que aconteceu quando ainda sobrevoava território afegão. Os soviéticos dispararam três mísseis SA-2 quando o U-2 de Powers sobrevoava a zona perto de Sverdlovsk.[9]

 

Eisenhower aprovou, a 3 de Maio, uma história de fachada para encobrir a real missão do U-2 abatido: “A NASA U-2 research plane, being flown in Turkey on a joint NASA – USAF Air Weather Service mission, apparently went down in the Lake Van, Turkey, area at about 9:00 AM, Sunday, May 1”[10].

 

Numa conferência de imprensa a 11 de Maio, Eisenhower abriu um precedente ao explicar publicamente a necessidade de atividades de intelligence em tempo de paz:

 

No one wants another Pearl Harbor. This means that we must have knowledge of military forces and preparations around the world, especially those capable of massive surprise attacks.

Secrecy in the Soviet Union makes this essential. In most of the world no large-scale attack could be prepared in secret, but in the Soviet Union there is a fetish of secrecy and concealment. This is a major cause of international tension and uneasiness today…

…Ever since the beginning of my administration I have issued directives to gather, in every feasible way, the information required to protect the United States and the free world against surprise attack and to enable them to make effective preparations for defense.”[11]

 

Khrushchev emitiu um comunicado e sublinhou que “this latest flight, towards Sverdlovsk, was an especially deep penetration into our territory and therefore an especially arrogant violation of our sovereignty. We are sick and tired of these unpleasant surprises, sick and tired of being subject to these indignities. They were making these flights to show up our impotence. Well, we weren’t impotent any longer”.[12] Georgi Zhukov, decano dos teoristas espaciais russos, avisou em Outubro de 1960 que desde que a URSS provasse que podia abater aviões espiões americanos, os Estados Unidos iriam apressar o desenvolvimento de novos métodos de colocar satélites em órbita. O tipo de informação fornecida por satélites espiões “can be of importance … solely for a state which contemplates aggression and intends to strike the first blow.”[13]

 

Em 1959, Eisenhower sublinhou que “the satellite, since it does not violate the air space,… represents the greatest future in the reconnaissance area[14]. A crise do U-2 expôs o comportamento impulsivo e errático que começava a ser característico em Khrushchev. A cimeira marcada em Paris para o mês seguinte manteve-se e apesar do líder soviético dar indicações que pretendia que a mesma se realizasse, reviu a sua posição: “I became more and more convinced that our pride and dignity would be damaged if we went ahead with the meeting as though nothing had happened[15].


Quando a conferência se iniciou, Khrushchev exigiu um pedido de desculpas formal pelo Presidente americano e a garantia de que os voos do U-2 tinham terminado. Contudo, Eisenhower não pediu desculpas, afirmou que os U-2 eram necessários e que iria pedir às Nações Unidas que fossem efetuados voos sobre território americano e soviético.[16]

 

A União Soviética ameaçou com ataques de mísseis a países como a Grã-Bretanha e Japão que acolheram e acolhiam os U-2, caso se verificassem quaisquer novos voos de reconhecimento a território soviético ou a países socialistas[17], [18].

 

A 18 de Agosto desse ano, os Estados Unidos lançaram com sucesso o satélite Discoverer XIV da base da Força Aérea de Vandenberg, começando uma nova era em imagery intelligence. Este satélite mostrou o primeiro de quatro ICBMs soviéticos operacionais.[19]"



[1] ANDREW, Christopher (1996), ibid., pp. 200-201

[2] TAUBMAN, Phillip (2003), ibid., pp. 227

[3] Richard Bissel foi o Chefe das Covert Operations da CIA na segunda metade da década de 1950.

[4] ANDREW, Christopher (1996), ibid., pp 243

[5] Idem, ibid., pp. 242

[6] DICKSON, Paul (2001), ibid., pp. 100-101

[7]ANDREW, Christopher (1996), ibid., pp. 243

[8] Este seria o 24º voo em território soviético e o segundo para Powers. Tratava-se da missão 4154, nome de código Operação Grand Slam. Powers já havia sobrevoado território chinês e pilotado o U-2 ao longo da fronteira soviética 6 vezes. A máquina que Powers pilotou fora reconstruída pela Lockheed após uma queda em 1959. Estava equipada com os mais recentes motores da Pratt & Whitney.

[9] TAUBMAN, Phillip (2003), ibid., pp. 305-307

[10] ANDREW, Christopher (1996), ibid., pp. 244

[11] Idem, ibid., pp. 248

[12] Idem, ibid., pp. 306.

[13] MCDOUGALL, Walter A., (1997), “The Heavens and the Earth – A Political History of the Space Age”, John Hopkins University Press, London, pp. 259

[14] GADDIS, John Lewis (1997), ibid., pp. 246

[15] Idem, ibid., pp. 246-247

[16] ALDRICH, Richard J, (2002), “The hidden hand – Britain, America and Cold War Secret Intelligence”, John Murray, London, pp. 536

[17] Estas ameaças foram efectuadas por Malinovsky a 30 de Maio e reiteradas por Khrushchev a 3 de Junho numa conferência de imprensa em Moscovo.

[18] Idem, ibid., pp. 537

[19] ANDREW, Christopher, ibid., pp. 249-250