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Astropolítica

"Se se pudessem interrogar as estrelas perguntar-lhes-ia se as maçam mais os astrónomos ou os poetas." Pitigrilli

Astropolítica

"Se se pudessem interrogar as estrelas perguntar-lhes-ia se as maçam mais os astrónomos ou os poetas." Pitigrilli

Artigo de Opinião de Miguel Monjardino publicado no Expresso de 6 de Janeiro

A fronteira final


Na madrugada do dia 28 de Dezembro a Europa deu o primeiro passo num projecto com enorme potencial político e estratégico quando um foguetão russo partiu para o espaço do cosmódromo de Baikonur, Cazaquistão, com o pequeno satélite europeu Giove-A. Durante os próximos meses, este pequeno satélite testará os relógios, o efeito das radiações e as frequências a usar pelo projecto Galileu, um ambicioso projecto espacial da Agência Espacial Europeia, União Europeia, empresas privadas e parceiros estrangeiros como a Índia, Israel, China, Ucrânia, Marrocos e Arábia Saudita. Orçado em 3.6 biliões de euros, o Galileu tem por objectivo colocar em órbita nos próximos anos trinta sofisticados satélites que permitirão uma navegação muito mais precisa e fiável do que a actualmente fornecida pelo sistema americano GPS. Um projecto tão ambicioso como este só será possível se todos os parceiros envolvidos conseguirem ultrapassar uma série de importantes obstáculos tecnológicos, financeiros e burocráticos. Uma presença permanente e fiável no espaço, a nossa fronteira final, é algo que nunca será nem barato nem fácil.

A presença do Velho Continente na fronteira final terá importantes consequências para as sociedades europeias. Para começar, o projecto Galileu será um importante empurrão para a indústria aeroespacial europeia, uma indústria absolutamente crucial hoje em dia. No caso de ser bem sucedido, a Comissão Europeia estima que o projecto possa ainda criar até 150.000 novos empregos na Europa. E numa altura em que a nossa dependência diária em relação à navegação por satélite é cada vez maior, um sistema como o Galileu terá um enorme potencial comercial. As vantagens serão também assinaláveis nas áreas da segurança e serviços de emergência.

O mesmo se diga do seu potencial político e estratégico. Na génese do Galileu está a ambição dos países europeus de diminuir a sua actual dependência em relação ao sistema GPS, um sistema facilmente acessível por qualquer interessado mas controlado pelos militares norte-americanos. Em caso de guerra, Washington tem sempre a possibilidade de restringir o acesso ao GPS ou de degradar a qualidade da informação fornecida a terceiros. Do ponto de vista político, o monopólio norte-americano no sistema de posicionamento global por satélite tem sido uma situação extremamente incómoda para os líderes europeus. Philippe Douste-Blazy, ministro dos Negócios Estrangeiros da França, não exagerou pois quando disse que o Galileu representa "a independência da União Europeia" em relação aos EUA nesta matéria.

Esta promessa de independência terá importantes consequências estratégicas. Não deixa de ser curioso notar que este ponto tem sido muito pouco acentuado pelos decisores políticos europeus. O que estes decisores acentuaram acima de tudo nos últimos dias foram as dimensões civil, tecnológica e comercial do Galileu. É verdade que a Agência Espacial Europeia está proibida de tomar parte ou financiar projectos militares. Mas também é óbvio que um sistema com tantos satélites em órbita e um grau de precisão tão elevado terá aplicações militares. A realidade é que o espaço é cada vez mais importante em termos estratégicos. O poder espacial, ou seja, o uso do espaço e de meios colocados no espaço para aumentar e projectar o poder militar é cada vez mais importante para países como os EUA, Rússia, China, Índia, Japão e alguns países europeus. O modo americano de fazer a guerra, por exemplo, com o seu ênfase no domínio da informação e ataques precisos a grande distância, seria impossível sem meios espaciais. Nas próximas décadas, quando os países europeus combaterem ou tentarem impôr a paz em regiões longe da Europa, a nossa dependência em relação ao espaço só poderá aumentar.

Quando se fala em coisas como poder espacial e a dimensão estratégica do espaço a reacção mais natural das pessoas é dizer que a última fronteira não pode ser militarizada. Mas este não é o verdadeiro problema. Por uma razão muito simples: o espaço tem sido profundamente militarizado desde 1961-1963, altura em que os EUA colocaram em órbita o satélite de reconhecimento Samos 1 e a primeira constelação de satélites para apoiar os seus submarinos com mísseis balísticos nucleares Polaris. Mas nem tudo foi mau na militarização do espaço. Os satélites de reconhecimento permitiram enorme transparência durante a Guerra Fria e ajudaram a manter a paz. Agora que o espaço é crucial do ponto de vista estratégico, a verdadeira questão é saber até que ponto vai haver guerra pelo controlo e acesso à ultima fronteira. A história estratégica sugere que mais tarde ou mais cedo tal acontecerá. Pensar estrategicamente sobre o espaço é pois para os europeus cada vez mais importante.