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Astropolítica

"Se se pudessem interrogar as estrelas perguntar-lhes-ia se as maçam mais os astrónomos ou os poetas." Pitigrilli

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"Se se pudessem interrogar as estrelas perguntar-lhes-ia se as maçam mais os astrónomos ou os poetas." Pitigrilli

“Faltam a Portugal objectivos e estratégia a Portugal" - Entrevista a Tessaleno Campos Devezas

Portugal foi pioneiro da globalização porque “inovou na arte de inovar” e soube determinar um objectivo claro e desenvolver as tecnologias, as técnicas e as estratégias necessárias para o alcançar. Hoje, explica o professor universitário Tessaleno Devezas, autor, com Jorge Nascimento Rodrigues, do livro “Portugal –O Pioneiro da Globalização”, o país deve encontrar o seu “intento estratégico” e apostar numa projecção global assente na relação com os vários países da sua história, em particular o Brasil, a China e a Índia. Numa conversa com a Espacialnews, Tessaleno Devezas fala sobre Portugal e os problemas da sua projecção global, analisa a continuação dos EUA como potência dominadora mas alerta para as sérias ameaças da China e Rússia à estabilidade global. Para o professor Devezas, o Espaço, motor de desenvolvimento tecnológico, pode assumir no futuro relevância como campo de batalha pelo domínio global, mas para já, a luta faz-se em terra, defende.

Tessaleno Campos Devezas, 60 anos, é Professor Associado com Agregação no Departamento de Engenharia Electromecânica da Univerdade da Beira Interior. Licenciado em Física, em 1969, pela Universidade do Estado de Rio de Janeiro, doutorou-se, em 1981, pela Universidade Erlangen – Nuremberga em Engenharia de Materiais. Coordena na UBI, O Grupo de Trabalho em Previsão Tecnológica e Teoria da Inovação e é membro do Corpo Consultivo do periódico Tecnhological Forecasting & Social Change. Foi galardoado, em 2004, com a medalha de Kondratieff, atribuída pela Academia Russa de Ciências Naturais, pelo seu conjunto de trabalhos sobre as Ondas de Kondratieff. Tem cerca de 50 trabalhos publicados em revistas internacionais e é editor do livro Kondratieff Waves, Warfare and Word Security (IOS Press, 2006).

Em que se baseia sua a constatação de que Portugal é “O Pioneiro da Globalização”?

Essa afirmação está largamente demonstrada no meu livro. Na verdade, não é um argumento apenas que a sustenta mas uma sequência de argumentos que servem para provar que Portugal inovou numa série de aspectos – na tecnologia, no uso da ciência, em novas medidas geoestratégicas tomadas pelo Infante D. Henrique e sobretudo pelo rei D. João II, enfim, como dizemos no livro, Portugal inovou na arte de inovar. E, fundamentalmente, a inovação era o pano de fundo para qualquer nação se lançar como líder, como uma potência económica.

 

Portugal, apesar de não ter recursos e ser um país pequeno na época, com cerca de um milhão de habitantes, iniciou uma série de inovações radicais, separadas no livro em dois capítulo que apelidamos de “Inovações da Fase I” e “Inovações da Fase II”.

 

Outro aspecto que serve de prova para dizermos que Portugal foi o pioneiro da Globalização é o facto de, ao longo do desenvolvimento desse grupo de inovações, notar-se a existência de dois ciclos em que Portugal foi claramente o líder, no período entre 1415 e 1470 e depois entre 1505 e 1540. Claramente, e está provado matematicamente no livro, Portugal – com base no grupo de inovações que referi – foi o pioneiro da Globalização, isto é, pioneiro da economia global. Foi o primeiro a sair da baía do Atlântico e do Mediterrâneo e a lançar-se pelo Atlântico em todas as direcções e pelo oceano Indico. Foi, assim, o primeiro a estabelecer relações comerciais num plano global.




Hoje é comum falar-se da gestão do conhecimento e da informação ou mesmo de Inteligência Competitiva ou Económica. Portugal, naquela altura, pelo que descreve no livro, soube usar a intelligence ao serviço do comércio global e nesse capítulo também inovou. Em relação à gestão do conhecimento, nota-se em Sagres a criação de um espírito de internalização e organização específica de conhecimento tecnológico…

È verdade. Note-se que a motivação era comercial e foi esse apelo comercial que despoletou a necessidade de importar conhecimento e gerar inovações, em termos de tecnologia, técnicas de navegação e medidas estratégicas.




À luz daquela que é a história de Portugal, reflectida no livro, como pode Portugal aproveitar hoje, no actual contexto económico e geopolítico os conhecimentos adquiridos ao logo da sua história, nomeadamente a partir de Quatrocentos?

Portugal deverá seguir o exemplo daquilo que nós traçamos no livro como a Matriz das Descobertas. Identificámos dez pontos que foram as principais características de Portugal nos Descobrimentos. O essencial é ver nesses dez pontos o que pode ser aproveitado como herança. Eu destacaria, a este propósito o seguinte: há uma relação, de conhecimento profundo, com três dos quatro BRIC’s. Há uma tradição de relação e de conhecimento do Brasil, China e Índia e que considero que, hoje, há a necessidade de saber gerir esse conhecimento. Bem ou mal, nota-se que membros do Governo e da oposição estão a olhar para esta necessidade e a actuar. Não digo que as medidas adoptadas são as ideais, mas vê-se que Portugal está a querer seguir o caminho daquilo a que chamamos no livro de “geometria variável”, ou seja, Portugal não se está a focar apenas na Europa, não está a deixar-se sufocar pelo espírito europeu. Até pelo contrário, vê-se Portugal sair dessa posição intra-europeia e apostar em iniciativas extra-Europa, na medida em que se mantém boas relações com os Estados Unidos, com a China, com a Índia, com o Japão e com o Brasil. Há que aproveitar essa herança de conhecimento.

 

Outro ponto fundamental da Matriz das Descobertas que podemos transpor para os nossos dias passa por fomentar essa questão da gestão do conhecimento. Isso é fundamental. Um país não vai sair do seu acanhamento tecnológico se não o fizer e em grande escala. Neste ponto, eu acho que ainda não se investe o suficiente. Fala-se muito, mas não se investe ainda o suficiente.




Podemos dizer que as redes traçadas pelas caravelas, que se perderam, em certa medida, ao logo dos tempos, devem ser novamente ligadas. Ou seja, devemos voltar a ligar o país ao Brasil, à China e à Índia, só para falar de alguns casos?

Sim, o caminho passa por aí e eu acho até que em relação ao Brasil poderia haver um maior aproveitamento do potencial de ligação. Nesse ponto, o Brasil foi negligenciado.

 

Deixe-me falar da minha experiência pessoal. Quando cá cheguei, há quinze anos, o que se via era a chegada de médicos e professores universitários brasileiros. Essa procura de mão-de-obra qualificada não era feita em grande escala, antes de um modo muito pontual, como aconteceu com a minha universidade que precisou e foi buscar um punhado de doutores. Mas, não foi uma busca em grande escala, como devia ter sido.

Importa qualificar a relação com o Brasil

O Brasil é um país desenvolvido, é uma potência económica, com muita gente qualificada que poderia vir trabalhar para cá. Como isso não foi feito na escala devida, o que se observou depois foi exactamente o contrário, começou a vir para Portugal – eu não gosto da palavra, mas vou usá-la – a ralé, uma mão-de-obra desqualificada que não tem que fazer no Brasil. Esta situação está, inclusive, a denegrir a imagem do brasileiro, o que não acontecia quando eu cá cheguei. Actualmente, as pessoas têm até vergonha de falar português brasileiro na rua…

 

A minha filha inclusive já me disse em dada altura: “eu tenho medo de ser confundida com uma puta”… Pode parecer mal, mas é isto que acontece e eu já vi muitas senhoras, algumas esposas de médicos que vieram para cá, terem vergonha de andar na rua.

 

O problema é que não houve a gestão da importação da mão-de-obra qualificada, que poderia ter havido. Importou-se muita mão-de-obra desqualificada e passou a ver-se um país invadido por uma grande massa de pessoas que trabalham no comércio, de um modo geral, e que não vão trazer necessariamente benefícios para o país.




Mais do que uma quantificação da relação com o Brasil, importa uma qualificação dessa relação?

Exactamente, é precisa uma qualificação dessa relação. Isso nunca foi implementado. Existem acordos esporádicos, mas não vemos uma planificação. Por exemplo, as universidades portuguesas tiveram uma diminuição imensa de alunos nas engenharias. Podia-se ter procurado alunos no Brasil, onde há um excesso de bons alunos que não entram nas boas escolas e teriam o interesse em vir para cá, se houvesse um programa, um acordo bilateral.




A História portuguesa, nomeadamente no período da expansão, revela um comprometimento científico que, como Carlos Zorrinho diz no portfólio de testemunhos final, constituiu a primeira Agenda de Lisboa. Faz falta hoje um maior comprometimento científico do país, é esse o caminho a tomar?

Sem dúvida. Só que eu acho que falta acção… Até é chato dizer isto, mas talvez tenha havido muito discurso e pouca acção. Mais, vamos até dar o desconto de o facto de existir um discurso ser já um ponto positivo, pode ser que atrás disso venha a acção. Há algumas acções, mas mesmo aí coloca-se o problema destas não serem muito transparentes, como foi o caso do acordo com as universidades norte-americanas.

 

Eu acho que o fundamental é que essa agenda de Lisboa, em termos de investigação universitária e qualificação tecnológica, seja mais objectiva. Veja o que os portugueses fizeram em 1400 e 1500; eles tinham um objectivo muito claro, que apelidamos de “intento estratégico”, que passava por chegar à rota das especiarias sem entrar em conflito no mediterrâneo, ou seja, pela criação de uma rota alternativa. Fizeram de tudo para obter a tecnologia necessária a esse fim.




A Inglaterra identificou recentemente as 6 tecnologias decisivas para o seu futuro...

Podem dizer que hoje o mundo é complexo e que as coisas eram mais simples na altura, era mais fácil identificar o objectivo, mas eu discordo. É óbvio que existe um espectro muito largo de escolhas, mas se houvesse um estudo claro das tecnologias em que vale a pena investir, investia-se nessas. Não se vai investir em cem tecnologias, escolhem-se algumas, mas investe-se. Deve procurar-se a opinião do pessoal qualificado existente em Portugal para fazer essa selecção, para saber, das cem áreas tecnológicas com potencial de desenvolvimento no mundo, quais são aquelas dez que podem ser desenvolvidas em Portugal. Mas há que fazer essa pergunta aos portugueses e não, como cá se usa, às pessoas que estão lá fora.

 

Sabe que a maioria dos painéis de avaliação das unidades de investigação em Portugal são painéis estrangeiros… Eu sinto-me constrangido de ver a minha unidade de investigação ser avaliada por avaliadores estrangeiros, que não conhecem a realidade nacional.




Falta a Portugal um intento estratégico?

Eles dizem que têm. Parece haver um intento estratégico, mas o intento estratégico tem de ser uma coisa muito bem delineada e objectivada...




Esse intento estratégico não deveria também passar pelo Espaço?

Claro que sim. Não é uma área da minha actividade… Já foi, eu no Brasil trabalhava nessa área, mas em Portugal eu dediquei-me mais à engenharia de materiais e à prospecção tecnológica. Mas, desde que cheguei, eu vi pouca, muito pouca, coisa nesse sentido.

 

Falou-se do tal satélite português. Para mim, peço desculpa, mas aquilo foi uma bolha, uma brincadeira. Foi feito muito espalhafato por nada. Não há satélite português nenhum. Existem casos de portugueses ligados à ESA, mas poucos. Por exemplo, na minha unidade de investigação, ligada ao sector espacial, foi identificada uma falta de ligação à ESA. Em Lisboa, há outras unidades de investigação na área espacial com essa ligação, mas falamos de mais de 100 investigadores, nós não temos os mesmos recursos.

 

Eu diria que Portugal nesse ponto está ainda muito longe. É preciso mais investimento e identificar o que podemos fazer para chegar a fazer alguma coisa.



A nível empresarial, há já uma massa crítica, obviamente a uma escala portuguesa, e que participa continuamente em projectos, até em grandes projectos espaciais. Há até casos excepcionais de empresas que lideram projectos da ESA…

Sim, nesse ponto sim. Esse caminho da aposta em nichos ou, mesmo, de fazer estações em Terra, contribuir com software, é uma possibilidade que interessa desenvolver.




No livro, e perspectivando o futuro, sugere três possíveis cenários para o pós-2030: os Estados Unidos renovam a sua liderança do ciclo hegemónico; organizações internacionais e o multipolarismo limitam influência e poder da superpotência; e fala também do risco de uma guerra de confronto à escala mundial da qual pode surgir um outro líder capaz de fazer a “construção de sistemas”. Como vê este novo ciclo hegemónico e que papel podem ter os BRIC’s?

Eu lanço três cenários, em princípio, com iguais probabilidades de acontecerem. Nesses três cenários que construo, se usarmos uma simples extrapolação dos ciclos já decorridos – e é o que faço no livro – é de acreditar que os Estados Unidos mantenham a hegemonia no próximo ciclo de Kondratiev e no próximo ciclo hegemónico.

Para mim, neste momento, o mais perigoso é a Rússia

Falo em extrapolação simples porque os EUA dominaram apenas um ciclo e há a tendência de seguir o exemplo de Inglaterra que liderou dois. Também a favor dos Estados Unidos – e também coloco isso no livro – está o facto de o país ser ainda o centro de inovação. As principais inovações tecnológicas e científicas ainda decorrem nos Estados Unidos, a despeito de um menor investimento que resulta de uma recessão económica, a despeito da perda de poder político na liderança mundial, embora haja, obviamente, uma supremacia militar, é de esperar nova liderança norte-americana até ao próximo período de transição.




Nesse cenário, de onde vêm as ameaças?

Temos, assim, algumas hipóteses. Os Estados Unidos vão liderar ou devido a essa várias crises, sobretudo face às dificuldades politicas para assumir a liderança global pode surgir um quadro de multi-polaridade. Ou seja, os Estados Unidos vão ver o seu poder diminuído, perante uma Europa mais poderosa e um Oriente mais poderoso e ficaremos com um jogo por definir, digamos assim, mais para a frente. E é daqui que vem o perigo. Nesse jogo por definir, pode aparecer um quadro inesperado por parte de dois actores, a Rússia e a China. E para mim, neste momento, o mais perigoso é a Rússia.

 

A Rússia tem um problema não resolvido com o Ocidente e isso nota-se no que se está a passar actualmente. É uma nação com problemas internos, não resolvidos e muito perigosos, que vão explodir a qualquer momento e isso não se passa na China que tem o problema da Formosa, mas isso creio, resolve-se com alguma diplomacia, não acredito que expluda. A Rússia é o perigo…



E a China?

Qualquer nação para ser líder num dado ciclo hegemónico tem de liderar a tecnologia, tem de se ver surgir naquela região a criação de tecnologia de base. Se virmos bem, apesar da China ser já quase a maior potência do mundo, competindo directamente com os Estados Unidos, eu não vejo onde está a inovação na China. Fala-se muito nisso, escreve-se muito sobre isso, mas não me é claro que esteja a haver. Há um grande investimento militar, a China está a implantar uma marinha poderosa, está a investir no Espaço, mas usa tecnologias ocidentais, em muitos casos norte-americanas, não está a criar nada de novo.

Os chineses não entram nessa onda de publicar trabalho para serem promovidos nas suas universidades, como sucede aqui, e aí reside o perigo

Bom, aqui podemos colocar uma questão: Será que não têm? Ou será que somos nós que não as estamos a ver? Há uma coisa que aconteceu com a Rússia e acontece agora na China que é o facto de os chineses não estarem embebidos por esse espírito ocidental que nos impele a divulgar e publicar tudo o que se investiga. Logo, tudo o que é conhecido é tecnologia e inovação científica ocidental. Os chineses não entram nessa onda de publicar trabalho para serem promovidos nas suas universidades, como sucede aqui, e aí reside o perigo. Pode estar a acontecer algo que desconhecemos, mas, ainda assim, eu minimizo isso.

 

Eu tenho acompanhado bem as inovações no plano da electrónica, da engenharia genética, dos materiais, da computação quântica, entre outras, e estão a aparecer muitas coisas novas nos Estados Unidos. A inovação lá ainda se desenvolve a contento. Silicon Valley ainda lidera, embora haja o equivalente na China e na Índia. E isto é o que me leva a afirmar que, com muita probabilidade, serão os Estados Unidos a dominar o próximo ciclo.




A China faz dumping social e ambiental...

É precisamente aqui que reside o perigo, porque falamos de uma liderança perigosa que vai ter de se confrontar com uma China ascendente e, mais grave, com uma Rússia ascendente com matéria-prima. Há ainda outro foco de confronto. Li um livro há pouco tempo, “The Coming China Wars – Where they will be fought and How they can be won”, de Peter Navarro, que provocou uma certa polémica nos Estados Unidos porque é um alerta de um economista sobre o perigo da China, não como potencia desafiante, mas de ser um país tão poluidor que, de repente, pode originar um movimento mundial de sanções. E se houver esse movimento de sanções que obrigue a China a parar – e isso fatalmente irá acontecer, dentro de alguns anos – vai haver um clima de confronto.

 

Resumindo, por um lado acredito na continuidade dos Estados Unidos na liderança, nos próximos trinta a quarenta anos, mas vai haver um contra-poder agravado pelo papel da Rússia, dominadora dos recursos, e pelo perigo da China, não no sentido de uma China altamente tecnológica, mas altamente militarizada, que vai ser pressionada a baixar o seu grau de poluição. Isto vai originar um momento muito grave de crise que se projecta para 2030, 2040.




Nesse campo, tanto a Rússia como a China têm estado muito activas no Espaço. Se antes o domínio global se jogava nos mares, hoje passa muito pelo Espaço, com uma clara ameaça à posição hegemónica norte-americana. Como analisa esses movimentos espaciais das grandes potências?

Repare, no caso da Rússia é interessante porque está a inovar em algumas coisas, especialmente na área comercial. A Rússia investe mais na área comercial do que os Estados Unidos. Os EUA estão mais preocupados com o avanço científico.

 

Os chineses já estão a investir noutra área, em ter os próprios lançadores, mas não investem em coisas novas, estão a fazer o que já foi feito, a colocar satélites de comunicação, a dominar um pouco o Espaço.

 

Não vejo nessa disputa lá em cima algum perigo maior, a não ser que se iniciem movimentações militares no Espaço. O Espaço, nessa perspectiva militar, dá um completo controlo do globo, de todos os lançamentos de mísseis em terra e um controlo das informações pelo uso para espionagem. Se isso está a acontecer não sabemos, não está muito claro, mas não acredito que esteja a acontecer, porque já teríamos ouvido falar de alguma coisa.

 

Acho que o Espaço vai continuar a ser importante e Portugal deve investir nesse sector, naquela perspectiva que referi. Mas daqui a 40 anos, a transição hegemónica não vai ser feita no Espaço, a guerra ainda vai ser em Terra, embora com um contributo muito importante do que se observa lá de cima. Talvez no outro ciclo já haja uma guerra no Espaço.




mesmo na visão mais optimista, Portugal não pode voltar a recuperar o papel de potência dominante. Como conjugar hoje Portugal com o conceito de potência?

Penso que não volta a ser a potência dominante. Primeiro, porque houve uma mudança. Naquela época, uma nação podia lançar-se como potência, como sucedeu com Portugal ou com a Holanda, com base numa projecção não continental. Isso agora mudou. As potências que se seguiram, se não tinham uma projecção continental grande ganharam-na, como foi o caso de Inglaterra. Depois, os Estados Unidos e mesmo a Rússia, a potência desafiante, tinham uma projecção continental. E, hoje, os emergentes têm todos projecções continentais.

 

A projecção continental importa hoje, sobretudo, devido às necessidades de recursos naturais. Se não houver acesso directo aos recursos naturais não há hipótese de chegar à liderança. Portugal, infelizmente não tem recursos naturais suficientes.

 

Mas, o país pode começar a concentrar cérebros para daí surgirem iniciativas que permitam dominar vários sectores tecnológicos. Acho, neste ponto, que uma das boas apostas é nas energias alternativas. Portugal está no caminho certo e tem investido bastante, até talvez acima das suas forças, mas faltam algumas coisas. Falta, por exemplo, a energia nuclear que não vai chegar, por não haver espaço físico.

 

Bem ou mal, o petróleo ainda vai dominar o planeta por mais 30 ou 40 anos, daí que eu diga que a parceria com o Brasil nesse ponto é importante, pode ser a base de recursos que Portugal precisa. Em relação à China deve haver uma troca de conhecimentos e de investimentos. A China é um mercado imenso e qualquer investidor português que consiga encontrar uma brecha para investir na China tem tudo para ser bem sucedido. Este é o caminho que Portugal pode e deve seguir, ou seja, o país deve apostar numa geometria variável para projectar a sua potência.

2007/12/05

 

(in Espacial News )