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Astropolítica

"Se se pudessem interrogar as estrelas perguntar-lhes-ia se as maçam mais os astrónomos ou os poetas." Pitigrilli

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"Se se pudessem interrogar as estrelas perguntar-lhes-ia se as maçam mais os astrónomos ou os poetas." Pitigrilli

Guerra no Caucaso

Agosto 19, 2008

Vera Gomes

Há dias deixei aqui um artigo sobre a Guerra no Caucaso e como esta poderia deixar os EUA sem acesso à ISS.

 

Deixo agora um artigo publicado no Expresso Online de Miguel Monjardino sobre este conflito que mostra o impacto geopolitico deste conflito.

 

 

'Georgia on my mind'

George Shultz, secretário de Estado da administração Reagan, passou o dia 17 de Abril de 1987 em Moscovo numa série de importantes reuniões com Eduard Shevardnadze, ministro dos Negócios Estrangeiros da União Soviética. Shultz sabia que Shevardnaze e a sua mulher Nanuli adoravam a sua terra natal, a Geórgia, uma turbulenta república soviética no Cáucaso. Durante o almoço, o secretário de Estado americano fez uma coisa inesperada. Em vez da tradicional saúde, Shultz cantou 'Georgia on My Mind', uma famosa canção norte-americana. A seguir um quarteto de funcionários da embaixada dos EUA em Moscovo cantou a canção em russo. Quando os risos e os aplausos pararam, Shevardnaze olhou para Shultz e disse "Obrigado George. Isto mostrou respeito".

 

Esta semana, a Geórgia voltou a estar na mente de muita gente no Cáucaso, em Washington, Moscovo e nas capitais europeias. Só que, desta vez não houve canção, muito menos sorrisos e aplausos. Ao usar pela primeira vez o seu poder militar de uma forma intensa fora do seu território nacional desde o final da Guerra Fria, o Kremlin mandou uma série de recados estratégicos cruciais às antigas repúblicas soviéticas, países europeus e Washington. Estes recados colocam uma série de difíceis problemas e dilemas estratégicos à Europa e aos EUA.

 

Nos últimos 17 anos a área de influência euro-atlântica aumentou imenso. Praticamente toda a Europa Central, Oriental e os Balcãs fazem parte ou estão a caminho de ser membros da NATO e União Europeia, as duas instituições fundamentais para a paz e prosperidade no Velho Continente nas últimas décadas. Em países como a Ucrânia e a Geórgia estão no poder líderes políticos e governos determinados a estabelecer relações privilegiadas com os países europeus e os EUA. No Cáucaso e na Ásia Central, o petróleo e o gás natural prometeram a diminuição da tradicional influência russa e o aumento da de Washington, de alguns países europeus e de Bruxelas. Em termos históricos, tudo isto é inédito e, exceptuando os Balcãs, foi conseguido sem guerras.

 

Do ponto de vista de Moscovo, o alargamento da NATO e da União Europeia até às suas fronteiras foram péssimas notícias. Para o Kremlin estes alargamentos foram uma violação flagrante de uma série de entendimentos negociados no final da Guerra Fria. A guerra pelo Kosovo (1999) e a perda do controlo na Geórgia (2003) e na Ucrânia (2004) causaram calafrios na elite política e militar russa. Determinada a recuperar a sua influência, a Rússia passou os últimos anos a arrumar a casa e à espera de uma oportunidade para mostrar aos seus vizinhos e aos seus aliados europeus e americanos que estava de volta e que tinha a vontade, os meios e o poder para ditar a situação no terreno.

 

O 11 de Setembro e o enorme aumento dos preços do petróleo aumentaram a margem de manobra russa. O primeiro acontecimento desviou as atenções e praticamente todos os recursos políticos e militares dos EUA para o Iraque, Afeganistão/Paquistão e Irão e levou os decisores russos a concluir que o poder de americanos e europeus está em declínio. O segundo garantiu ao Kremlin os meios para começar a levar a cabo uma agenda externa bem mais ambiciosa. Os últimos dias deram a Moscovo a hipótese de ganhar uma espécie de medalha de ouro estratégica, a primeira desde 1991. O Kremlim ganhou esta medalha ao agir militarmente de uma forma unilateral, extremamente rápida e decisiva contra a Geórgia. A maneira como a operação militar contra Tbilissi foi conduzida por elementos do 58º Exército do Norte do Cáucaso e pela 76ª Divisão Aerotransportada 'Pskov' e os factos criados no terreno permitiram à Rússia atingir três objectivos cruciais.

 

O primeiro foi garantir maior influência no Cáucaso do Sul, algo visto como essencial em Moscovo para controlar o que se passa no Cáucaso do Norte, um dos tradicionais pesadelos históricos russos. Se tivermos isto em conta, a possibilidade de Tbilissi recuperar a Ossétia do Sul e a Abhkázia é agora nula. O segundo objectivo, foi aumentar imenso o preço a pagar pelas capitais europeias, EUA e Canadá pela eventual entrada da Geórgia e da Ucrânia na NATO. A paz punitiva que Moscovo tem em mente para Mikhail Saakashvili e o seu governo visa claramente tornar o país instável e ainda menos apetecível para membros influentes da NATO como a Alemanha, França e Itália. Não de certeza por acaso que os presidentes da Polónia, Ucrânia, Lituânia, Estónia e Letónia estiveram a meio da semana em Tbilissi a prestar solidariedade a Mikhail Saakashvili. O debate sobre este assunto será intenso e dividirá profundamente os países europeus. Finalmente, a acção militar russa pôs claramente em causa a credibilidade regional dos EUA. Na hora da verdade, Washington não teve nem os meios nem a vontade política necessária para proteger um aliado em grandes dificuldades.

 

Os últimos dias tornaram claro que o tempo dos saldos estratégicos russos a que europeus e americanos se habituaram nos últimos anos acabou. E agora?

 

 

A bomba chinesa

 

Mais uma semana, mais notícias sobre a imparável ascensão chinesa. Esta semana tivemos notícias sobre mais medalhas de ouro chinesas nos Jogos Olímpicos em Pequim. Ficámos também a saber que a China tem o maior número mundial de utilizadores da Internet - 253 milhões de pessoas. Tudo indica que para o ano a China ultrapassará os EUA na produção de bens manufacturados. A liderança dos EUA na produção destes bens dura há mais de 100 anos. Pequim parece hoje em dia imparável mas não é. A melhor maneira de ver isto é olhar para a demografia do país. A China tem actualmente 100 milhões de pessoas com mais de 60 anos. Em 2050 terá à volta de 335 milhões. Destes, 100 milhões terão mais de 80 anos. O problema é que a enorme maioria dos chineses não tem segurança social. Estamos a falar de centenas de milhões de pessoas. A demografia é a bomba invisível na China.

Miguel Monjardino"

 

 

 

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